segunda-feira, 22 de novembro de 2010

DE MARCHA ATRAZ


Hoje vou-vos contar um pequeno episódio de há cerca de 50 anos.
Como já devem ter percebido, naquela altura, cultivava-se trigo no Nordeste Transmontano. No verão era ceifado e carreado para as eiras, onde eram erguidas as medas. A seguir era trilhado para extrair o trigo da espiga.
O meu pai, com os meus irmãos, tinha umas máquinas, debulhadoras, accionadas com um motor e um tractor. O aluguer era pago em trigo, maquia.
Tais máquinas, para além de trabalharem, na freguesia, eram deslocadas para os lugares vizinhos, para o mesmo efeito.
O trigo das maquias ia-se acumulando e era preciso transportá-lo para as tulhas, em casa, para depois ser levado para o celeiro.
Tudo isto para vos dizer: o meu querido irmão Domingos, (lembram-se?) em determinada altura, por volta dos meus 10/11 anos, andava com uma dessas máquinas, salvo erro, em Algosinho. Não tinha carta de condução, pelo que para fugir à G.N.R., o transporte era feito de noite.
Claro que depois de um dia ou uma semana de trabalho o sono apertava. Pois lá ia o Domingos mas, de repente, os olhitos fecharam-se e aí vai ele e o tractor, com o reboque carregado, para fora da estrada. Por azar havia um aqueduto contra o qual embateu. Resultado, para além de despejar a carga, o eixo da frente foi à vida. Partiu-se um dos braços. Ele era serralheiro de profissão. E vai daí tractor de marcha atrás, pois o eixo segurava-se, com a ajuda de um calço do outro lado, e aí vai ele, cerca de 16 quilómetros, para o Mogadouro, para a única oficina onde poderiam repará-lo. Entretanto, para que o trigo já prontinho, não tomasse asas, o meu pai mandou-me, pobre criancinha, guardá-lo, com um empregado, sem que alguém se lembrasse da merenda. Foi um sarilho, mas lá nos aguentamos.
O tractor foi reparado e, mesmo sem o capot, voltou ao trabalho ainda nesse dia…

7 comentários:

jorge henriques disse...

Olá boa noite
Como os tempos mudam, num espaço de algumas decadas.Antigamente iniciáva-se o trabalho cedo demais na maior parte das vezes por questões economicas das familias, deixando muitos adolescentes de poderem prosseguir os estudos ,hoje assiste-se ao inverso, adolescentes a quererem sair do ensino para trabalhar mas sem qualificaçâo alguma, no futuro teremos um Pais cheio de candidatos a empregos nos serviços e falta de candidatos com qualificaçâo .Que falta nos faz os Cursos Industriais e Comerciais DE outros tempos.
Amigo Bartolo tenha uma boa semana
abraço
jorge

sideny disse...

Olá Sr.Bártolo

Tempos antigos.
Uma boa semana para si.

beijinhos

JBártolo disse...

Olá Jorge:
Seja benvindo, de novo, a esta sua casa. Concordo inteiramente consigo. São só facilidades e que não são aproveitadas. Vamos vêr no isto vai dar.
Um abraço e boa semana também para si.

Olá Sideny:
Pois eram outros tempos em que nada estava à mão, era preciso, ir, procurar...
Beijinhos e boa semana

BRANCAMAR disse...

Tempos duros esses pai Bártolo, que moldaram os homens e lhe deram força para todos os embates da vida.
Hoje sofre-se de outro modo, como diz o Jorge, por falta de emprego. São as contradições dos novos tempos.
Todos estudam e procuram formações, mais e mais qualificações, que depois não conseguem realizar.

Um beijinho para si e para a mãe São.
Um bom fim de semana para os dois.
Branca

JBártolo disse...

Olá Tia
Isto são coisas, pequenos episódios, de que me vou lembrando, mas efectivamente, a esta distãncia, e é já muito tempo, percebem-se bem as diferenças, e ainda eu era um privilegiado que, embora tivesse botas e sandálias, queria andar descalço para andar como os meus amigos... Veja só!
Beijinhos

JB disse...

E embora o risco da situação :) é uma história que remonta, como diz, há já alguns tempos... mas creio que nas entrelinhas fica o gosto dessas aventuras, recordadas na partilha das actividades agrícolas que se cultivavam com corpo e alma e na família com a cumplicidade da amizade.

Beijinho

JBártolo disse...

Olá JB
É bem verdade o que deixa dito. É mais um dos episódios com o meu irmão preferido. Eu era um puto e andava sempre "agarrado" a ele. Infelizmente já se foi.
Beijinhos