Hoje vou-vos contar um pequeno episódio de há cerca de 50 anos.
Como já devem ter percebido, naquela altura, cultivava-se trigo no Nordeste Transmontano. No verão era ceifado e carreado para as eiras, onde eram erguidas as medas. A seguir era trilhado para extrair o trigo da espiga.
O meu pai, com os meus irmãos, tinha umas máquinas, debulhadoras, accionadas com um motor e um tractor. O aluguer era pago em trigo, maquia.
Tais máquinas, para além de trabalharem, na freguesia, eram deslocadas para os lugares vizinhos, para o mesmo efeito.
O trigo das maquias ia-se acumulando e era preciso transportá-lo para as tulhas, em casa, para depois ser levado para o celeiro.
Tudo isto para vos dizer: o meu querido irmão Domingos, (lembram-se?) em determinada altura, por volta dos meus 10/11 anos, andava com uma dessas máquinas, salvo erro, em Algosinho. Não tinha carta de condução, pelo que para fugir à G.N.R., o transporte era feito de noite.
Claro que depois de um dia ou uma semana de trabalho o sono apertava. Pois lá ia o Domingos mas, de repente, os olhitos fecharam-se e aí vai ele e o tractor, com o reboque carregado, para fora da estrada. Por azar havia um aqueduto contra o qual embateu. Resultado, para além de despejar a carga, o eixo da frente foi à vida. Partiu-se um dos braços. Ele era serralheiro de profissão. E vai daí tractor de marcha atrás, pois o eixo segurava-se, com a ajuda de um calço do outro lado, e aí vai ele, cerca de 16 quilómetros, para o Mogadouro, para a única oficina onde poderiam repará-lo. Entretanto, para que o trigo já prontinho, não tomasse asas, o meu pai mandou-me, pobre criancinha, guardá-lo, com um empregado, sem que alguém se lembrasse da merenda. Foi um sarilho, mas lá nos aguentamos.
O tractor foi reparado e, mesmo sem o capot, voltou ao trabalho ainda nesse dia…