sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"O MAIS ILUSTRE TRANSMONTANO"

Nas minhas viagens pela globosfera tive a sorte de, em mais uma visita a "Paisagens de Trás-os-Montes", http://trasmontesdepaisagens.blogs.sapo.pt, encontrar o poema que segue.
Com a devida vénia e o perdão do proprietário tomei a liberdade de o copiar para o publicar neste meu espaço e dessa forma transmiti-lo aos meus poucos leitores. Espero ser perdoado por este abuso.
Aqui vai:

“O MAIS ILUSTRE TRANSMONTANO" por Armando Jorge e Silva
Há gente ilustre,
Aos montes,
Lá na minha terra de Trás-os-Montes.
Há-os Doutores, Médicos e Legistas,
Professores, Mentores, Catedráticos e Juristas,
Empresários, Engenheiros, Poetas, Padres, Romancistas,
Artesãos que modelam pensamento e arte com as mãos.

Também há Generais,
E mais, muitos mais,
Cujos nomes são atracção
Nas enciclopédias, nos dicionários
E nos anais
Da Nação.

Mas o Transmontano mais nobre
Não tem nome, porque é pobre,
Porque mistura as mãos, a carne,
O sangue, a alma, o ser, à agua, ao ar, à terra
Que o fez nascer;
Que devolve à terra, graciosamente,
Os filhos que gerou com dor
E amor no ventre.

O mais ilustre transmontano
Não vem nos anuais, Diários, Semanários,
Nem telejornais.
É conhecido, Ignorado,
Por vezes, vaiado,
Porque a sua esperança
Não vai muito para lá
Do horizonte
Que o seu olhar alcança.

O mais ilustre transmontano
Finca os pés no torrão agreste recusando a Tentação do ir,
Junta o dia a- noite, a noite ao dia
E faz da sua vida,
Sem hesitação,
Uma oblação continua de dor e agonia.

E grita,
Grita que fica,
Agarrado,
Alapado as raízes da sua terra.

E jura,
Jura, por Deus,
Sobre a campa dos seus,
Que não vai embora
Por esse mundo fora,

Que não desiste,
Que resiste,
Porque sabe que é graças a ele
Que Trás-os-Montes existe.
                                     Armando Jorge e Silva

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

DE MARCHA ATRAZ


Hoje vou-vos contar um pequeno episódio de há cerca de 50 anos.
Como já devem ter percebido, naquela altura, cultivava-se trigo no Nordeste Transmontano. No verão era ceifado e carreado para as eiras, onde eram erguidas as medas. A seguir era trilhado para extrair o trigo da espiga.
O meu pai, com os meus irmãos, tinha umas máquinas, debulhadoras, accionadas com um motor e um tractor. O aluguer era pago em trigo, maquia.
Tais máquinas, para além de trabalharem, na freguesia, eram deslocadas para os lugares vizinhos, para o mesmo efeito.
O trigo das maquias ia-se acumulando e era preciso transportá-lo para as tulhas, em casa, para depois ser levado para o celeiro.
Tudo isto para vos dizer: o meu querido irmão Domingos, (lembram-se?) em determinada altura, por volta dos meus 10/11 anos, andava com uma dessas máquinas, salvo erro, em Algosinho. Não tinha carta de condução, pelo que para fugir à G.N.R., o transporte era feito de noite.
Claro que depois de um dia ou uma semana de trabalho o sono apertava. Pois lá ia o Domingos mas, de repente, os olhitos fecharam-se e aí vai ele e o tractor, com o reboque carregado, para fora da estrada. Por azar havia um aqueduto contra o qual embateu. Resultado, para além de despejar a carga, o eixo da frente foi à vida. Partiu-se um dos braços. Ele era serralheiro de profissão. E vai daí tractor de marcha atrás, pois o eixo segurava-se, com a ajuda de um calço do outro lado, e aí vai ele, cerca de 16 quilómetros, para o Mogadouro, para a única oficina onde poderiam repará-lo. Entretanto, para que o trigo já prontinho, não tomasse asas, o meu pai mandou-me, pobre criancinha, guardá-lo, com um empregado, sem que alguém se lembrasse da merenda. Foi um sarilho, mas lá nos aguentamos.
O tractor foi reparado e, mesmo sem o capot, voltou ao trabalho ainda nesse dia…

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

VIAGEM NO TEMPO

Recebi ontem o Boletim de "A PREVIDÊNCIA PORTUGUESA", onde vem publicado, na página em que se dá voz ao associado, o poema que a seguir transcrevo, por que ele traduz exactamente o meu actual estado, o meu sentir... Quase parece que o seu autor, o associado Senhor José Amaral, de Vila Nova de Gaia, me conhece, mas não:

VIAGEM NO TEMPO

Sou construtor de frases
Encadeadas e algum sentido,
Mas por vezes tenho fases
Que me sinto confundido.

Desabafo sentimentos e outras emoções;
No íntimo, com muitos lamentos,
Salpicado de desilusões
Fico com os meus pensamentos.

Nem tudo o que penso eu digo
Para não ser incompreemdido;
Alguns segredos eu bendigo
Ficarem no meu mundo perdido.

Já deste mundo pouco sou
Estou com horas marcado;
Cansado da jorna em que estou
Prefiro ser recambiado.

A Vida e a Morte
São um incógnito dilema:
Qual será a melhor sorte,
Ter uma ou outra por tema?

José Amaral



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

FARANDULO

Farandulo
Foto "surripiada" ao thoense

Em Tó há, ou havia, diversas festas sempre muito concorridas  quer pelos naturais da freguesia quer pelos  habitantes das aldeias vizinhas.
Uma delas é a Festa do Menino que ocorre no primeiro dia de cada ano. Manda a tradição que três  rapazes se vistam de "Cécia" (mulher), de "Moço" e de "Farandulo".
O grupo, ao som do gaiteiro, percorre todas as ruas da aldeia, ao que me lembro, para recolher donativos para o Menino. Durante o trajecto o Farandulo mete-se com as meninas, pintando-as com cortiça queimada, assalta os fumeiros das residências e investe sobre a Cécia procurando agarrá-la. Destes ataques é defendida com afinco e galhardia pelo "Moço".
Durante a noite anterior, ou mesmo durante a tarde, é junta pelos rapazes muita lenha na Praça, em frente à Casa Grande, a qual era, na sua maioria, furtada.
É, então, ateado o fogo que arde sem parar cerca de oito dias. Á volta dela reúne-se toda a gente que, ao som do gaiteiro, vai bebendo uns copos e petiscando o que aparecer.
No dia um, a festa continuava com musica e arraial, onde nunca faltava o "jogo do pau", semelhante ao dos Pauliteiros de Miranda, quase sempre com cabeças partidas.